Textos de História

Agosto 19, 2008

A filosofia pós-kantiana

Arquivado em: Textos — Tags: — textosdehistoria @ 6:47 pm

A filosofia pós-kantiana (séc. XIX)

Todos os bons espíritos repetem, desde Bacon, que somente são reais os conhecimentos que repousam sobre fatos observados.
Ciência, logo previsão, logo ação. (Comte)

A crítica feita por Kant à metafísica na Crítica da razão pura provocou o aparecimento de duas linhas divergentes entre os filósofos posteriores. De um lado, os materialistas (Feuerbach) e os positivistas (Comte), sendo que estes reduzem o trabalho da filosofia à mera síntese dos resultados das diversas ciências particulares, não cabendo ao filósofo teorizar sobre “idéias sem conteúdo”. De outro, os idealistas (Fichte, Schelling e Hegel), que levam às últimas conseqüências a capacidade que Kant atribuía à razão de impor formas a priori ao conteúdo dado pela experiência. Portanto, para os idealistas, a filosofia é o estudo dos processos pelos quais a realidade deriva dos princípios constitutivos do espírito: o mundo é o produto de um movimento do pensamento.

O Positivismo

A Revolução Industrial nó século XVIII, expressão do poder da burguesia em expansão, demonstrou a eficácia do novo saber inaugurado pela ciência moderna no século anterior. Ciência e técnica tornam-se aliadas, provocando modificações no ambiente humano jamais suspeitadas. De fato, basta lembrar que, antes do advento da máquina a vapor, usava-se a energia natural (força humana, das águas, dos ventos, dos animais) e; por mais que houvesse diferenças de técnicas adotadas pelos diversos povos através dos tempos, nunca houve alterações tão cruciais como as que decorreram da Revolução Industrial.

A exaltação diante desse novo saber e novo poder leva à concepção do cientificismo, segundo o qual a ciência é considerada o único conhecimento possível e o método das ciências da natureza o único válido, devendo, portanto, ser estendido a todos os campos da indagação e atividade humanas. Nesse clima, desenvolve-se no século XIX o pensamento positivista, que tem Auguste Comte (1798-1857) como principal representante.

Comte e a lei dos três estados

Para um rápido esboço do pensamento de Comte, vamos utilizar suas próprias palavras, como constam da primeira lição do Curso de filosofia positiva.

“Estudando, assim, o desenvolvimento total da inteligência humana em suas diversas esferas de atividade, desde seu primeiro vôo mais simples até nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei fundamental, a que se sujeita por uma necessidade invariável, e que me parece poder ser solidamente estabelecida, quer na base de provas racionais fornecidas pelo conhecimento de nossa organização, quer na base de verificações históricas resultantes do exame atento do passado. Essa lei consiste em que cada uma de nossas concepções principais, cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessivamente por três estados históricos diferentes: (…)

“No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os efeitos que o tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo.

“No estado metafísico, que no fundo nada mais é do que simples modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste, então, em determinar para cada um uma entidade correspondente.

“Enfim, no estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis de sucessão e de similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o progresso da ciência tende cada vez mais a diminuir.

“(…) Essa revolução geral do espírito humano pode ser facilmente constatada hoje, duma maneira sensível embora indireta, considerando o desenvolvimento da inteligência individual. (…) Ora, cada um de nós, contemplando sua própria história, não se lembra de que foi sucessivamente, no que concerne às noções mais importantes, teólogo em sua infância, metafísico em sua juventude e físico em sua virilidade?”

Desse texto podemos constatar que, para Comte, o estado positivo corresponde à maturidade do espírito humano. O termo positivo designa o real em oposição ao quimérico, a certeza em oposição à indecisão: o preciso em oposição ao vago. É o que se opõe a formas teológicas ou metafísicas de explicação do mundo.

Assim, enquanto o primitivo poderia explicar, por exemplo, a queda dos corpos pela ação dos deuses, o metafísico Aristóteles a explicaria pela essência dos corpos pesados, cuja natureza os faz tender para baixo, onde seria o seu “lugar natural”. Galileu, espírito positivo, não indagaria o porquê, não procuraria as causas primeiras e últimas, mas se contentaria em descrever como o fenômeno ocorre.

Segundo Comte, “todos os bons espíritos repetem, desde Bacon, que somente são reais os conhecimentos que repousam sobre fatos observados”.

O positivismo retoma, portanto, a linha desenvolvida pelo empirismo do século XVII. Segue a esteira daqueles que aproveitaram a crítica feita por Kant à metafísica, no século XVIII. Leva às últimas conseqüências o papel reservado à razão de descobrir as relações constantes e necessárias entre os fenômenos, ou seja, as leis invariáveis que os regem. Deriva daí o determinismo, pelo qual o reino da ciência é o reino da necessidade. Aqui o conceito de necessidade significa o que tem de ser e não pode deixar de ser; nesse sentido, necessário opõe-se a contingente. No mundo da necessidade, não há lugar para a liberdade.

Expulsos os mitos, a religião, as crenças em geral e a metafísica, que papel é reservado à filosofia? Cabe a ela a mera sistematização das ciências, a generalização dos mais importantes resultados da física, da química, da história natural. Segundo Garcia Morente, o positivismo é o suicídio da filosofia…

A classificação das ciências e a sociologia

Comte fez uma classificação das ciências: matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia. O critério da classificação vai da mais simples e abstrata, que é a matemática, até a mais complexa e concreta, que é a sociologia. E essa ordem não é apenas lógica, mas cronológica, pois foi nessa seqüência que elas apareceram no tempo.

A sociologia foi considerada ciência por Comte, que se diz seu fundador. Define-a como uma física social, mas na verdade toma os modelos da biologia e explica a sociedade como um organismo coletivo.

O indivíduo encontra-se submetido à consciência coletiva; por isso tem pouca possibilidade de intervenção nos fatos sociais. A ordem da sociedade é permanente, à imagem da invariável ordem natural.

A sociologia de Comte gira em torno de núcleos constantes, como a propriedade, a família, o trabalho, a pátria, a religião. Exclui a preocupação com uma teoria do Estado e com a economia política.

A filosofia de Comte pode ser considerada como uma reação conservadora à Revolução Francesa (1789). Colocando-se no caminho contra-revolucionário, quer participar da reconstrução, instituindo a ordem de maneira soberana. E é essa idéia de ordem que domina seu trabalho de sistematização da filosofia, levando-o à necessidade de classificar as ciências e todo o conhecimento em quadros fechados, estanques. (Observe que a palavra ordem significa ao mesmo tempo “arranjo” e “mando”.) É ele mesmo que afirma: “Nenhum grande progresso pode efetivamente se realizar se não tende finalmente para a evidente consolidação da ordem”.

Segundo Verdenal, “a idéia de ordem está ligada à idéia de hierarquia como sistema de subordinação rígida da parte ao todo, do inferior ao superior, do processo ao resultado, e isso dá a chave da famosa palavra de ordem: pelo progresso para a ordem”[1].

A história não é mais pensada como um vir-a-ser, mas como uma seqüência congelada de estados definitivos, e a evolução nada mais é do que a realização, no tempo, daquilo que já existia em forma embrionária e que se desenvolve até alcançar o seu ponto final. O seu conceito de ciência é o de um saber acabado, que se mostra sob a forma de resultados e receitas.

Tendo colocado a ciência positiva como o ápice da vida e do conhecimento humanos, Comte prossegue estabelecendo uma série de postulados aos quais a ciência deve se conformar. O principal deles é que a ciência deve assegurar a marcha normal e regular da sociedade industrial. Ora, ao fazer isso, Comte troca a teoria filosófica do conhecimento por uma ideologia.

Essa rígida construção teórica culmina com a concepção da religião positiva. É ela que, integrando a sociedade dos vivos na comunidade dos mortos, na trindade formada pelo Grande Ser, pelo Grande Feitiço e pelo Grande Meio, fornecerá o enquadramento social que colocará os indivíduos ao abrigo das convulsões históricas.

Não deixa de ser estranho constatar a criação de uma religião positivista, se considerarmos que o contexto comtiano privilegia o positivo como última fase de uma evolução iniciada pelo estado teológico, considerado o mais arcaico e infantil da humanidade. Nesse sentido, o professor Verdenal se pergunta: “O exame da religião positiva põe-nos, mais uma vez, diante das ambigüidades comtianas: tra­ta-se de uma racionalização do sagrado ou de uma sacralização do racional?”[2].

[1] Verdenal, apud F. Châtelet, História da filosofia; idéias, doutrinas, v. 4, p. 205.
[2] Verdenal, apud F. Châtelet, História da filosofia; idéias, doutrinas, v. 5, p. 229.

2 Comentários »

  1. Valeu mesmo Darlon pela iniciativa!

    Comment por Willam´s — Agosto 20, 2008 @ 4:16 am

  2. O conhecimento positivista se baseia no fato como sendo auto-explicativo, ou seja, ele mesmo já diz tudo para o cientista, não cabendo o mesmo, fazer uma interpretação mais profunda dos acontecimentos (idéia defendida por vários teóricos em diversos ramos, como Coulanges na História e Durkhein na Sociologia), porém, tal visão trás aos historiadores, sociólogos e antropólogos uma idéias extremamente limitada dos fatos, havendo em muitas vezes, uma generalização infeliz das conjecturas históricas. Podemos citar vários casos dessas generalizações provenientes na visão positivista dos fatos, como as relatadas em muitos livros didáticos, tratando a Grécia por completo na idade clássica, sendo que tal termo “clássico” é particular da cidade estado Atenas em sua maioria, divergindo das outras póleis, como Tebas, Corinto ou até mesmo Esparta, que vivia uma situação mais caracterizada como arcaica (modo de produção de caráter agrícola e extremamente militar, tendo a formação artística em segundo plano).

    Comment por Leandro da Silva Moraes — Agosto 20, 2008 @ 6:08 pm


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